Porto Nacional, 30 de maio de 2017

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Como se deu a construção da majestosa e imponente Catedral Nossa Senhora das Mercês

                                                Foto: Arquivo do jornal O Pararelo 13

Catedral Nossa Senhora das Mercês o maior templo Católico
construido  pelos Frades Dominicanos na região norte do pais


A rica história da construção da Catedral Nossa Senhora das Mercês em Porto Nacional, tem seus primeiros registros datados de 1810, quando o ouvidor Joaquim Teotônio Segurado, determinou a construção de uma singela capela no principal largo daquele pequeno povoado, cravado na margem direita do caudaloso rio Tocantins, e que a cada dia recebia mais moradores, oriundos das desgastadas minas de ouro do Carmo e alguns desgarrados indígenas e não indígenas das terras do Pontal.

Foi do Arraial do Pontal, após o sangrento massacre comandado pelos guerreiros Xavantes, unidos aos Xerentes, que veio parar nas futuras terras portuenses a imagem de Nosso Senhor de Bom Jesus do Pontal, símbolo do cristianismo já incorporado a um grande número de fieis, índios e não índios, todos catequizados, e que após aquela batalha, os poucos sobreviventes fugiram a nado e mesmo perseguidos, conseguiram salvar a imagem santificada, hoje exposta no centro do principal altar da centenária Catedral Nossa Senhora das Mercês.

Com a igrejinha construída no centro do largo, que mais tarde se tornaria a das Mercês, e com a imagem do Nosso Senhor de Bom Jesus do Pontal exposta ali, o número de fiéis só aumentava, provocando assim a necessidade da criação da Paróquia, o que ocorreu sob a normatização da Lei Provincial número 14, de 23 de julho de 1835. Quase cinqüenta anos depois, em 1883, o Bispo de Goiás, Dom Cláudio Ponte Leão, em visita a já emancipada Porto Nacional é interpelado por autoridades locais que querem que missionários cuidando da fé, dos bons costumes e da educação das futuras gerações do município.

Ciente da importância daquela reivindicação, o religioso goiano foi à Roma e ali oficializou o pedido, imediatamente aceito pela Santa Sé e assim, do norte da França, mais especificamente do Castelo Medieval de São Maximim, os primeiros Frades Dominicanos foram enviados à paróquia de Porto Nacional, e aqui chegaram em 20 de maio de 1886, momento em que se iniciou uma grande travessia em direção ao fortalecimento da fé cristã, da fraternidade, do conhecimento e especialmente das grandes realizações enquanto patrimônio histórico.

No decorrer daqueles anos, muitos outros religiosos franceses chegaram a Porto Nacional e com eles a certeza de se construir um grande templo para ali abrigar um número de fiéis, cada vez maior e sem espaço na singela capela construída por ordem do ouvidor Joaquim Teotônio Segurado. Dentre os frades dominicanos, o destaque ficava sempre por conta de Frei Bartolomeu, mais conhecido como Frei Berto, religioso de espírito inventivo, empreendedor, e com raras habilidades nas áreas da arquitetura, da engenharia e principalmente no trato com seu rebanho de seguidores.

Foi de sua prancheta, fonte primeira dos nascentes rabiscos e desenhos impressionantes, que brotaram as imponentes paredes, arcos e colunas talhados em pedra canga, escorados engenhosamente por tijolos e barro misturado com fezes de gado e cinza de queimadas provocadas nas cercanias da cidade. Esta gigantesca obra começou a sair do papel em 1893, momento em que a comunidade portuense se juntou a alguns profissionais da construção civil da região e outros tantos oriundos de Belém, no Pará, e de Barreiras, na Bahia, que com ferramentas apropriadas começaram a ferir a terra e abrir as grandes cavas, com dois metros de profundidade e um de largura, para ali plantar o alicerço da Catedral Nossa Senhora das Mercês.

O comando da ousada construção da Catedral Nossa Senhora das Mercês era de Frei Berto, com a participação direta e diuturna dos demais religiosos franceses, que coordenavam os trabalhos de carpintarias e olarias, implantadas para este fim, como também do manejo dos gigantescos blocos de pedras canga, carregadas por grandes carros de madeira, puxados por juntas de bois, e que no canteiro da monumental obra eram milimetricamente entalhados por mãos hábeis de mestres artesões, também eficientes na leitura des projetos arquitetônicos.

No exército de construtores da Catedral Nossa Senhora das Mercês, comandado por Frei Berto e seus irmãos dominicanos, havia crianças, carregando pequenos vasilhames domésticos, cheios de água retirada do rio Tocantins, como também pessoas simples e membros de abastadas famílias da região, além de índios catequizados e serviçais de coronéis e políticos. Ali, centenas de fiéis dedicavam parte do dia na dura labuta de edificar o mais imponente templo católico de toda a região Norte do Brasil.

Os coronéis da cidade, juntamente com as lideranças políticas de toda a região, também contribuíam direta e indiretamente com as obras da Catedral Nossa Senhora das Mercês, fazendo doações em dinheiro, para pagar os profissionais contratados, e fornecendo víveres, como carne de gado, de porco, arroz, farinha, feijão, milho, para a alimentação de muitos que ali passavam o dia. Eram deste grupo de afortunados os barcos que desciam o rio Tocantins até Belém, no Pará e de lá traziam as ferramentas e equipamentos necessários para a execução de algumas intervenções especiais na montagem de colunas e arcos da nave central daquele templo católico.

Os senhores mandatários da Porto Nacional da época, coronéis e lideranças políticas, por décadas foram também senhores de escravos. Mesmo após a assinatura da Lei Áurea, 13 de maio de 1888, eles continuaram a manter em suas terras e casarões, famílias inteiras recém libertas por força da decisão da Princesa Izabel, e assim posto, continuavam realizando os mesmo trabalhos de antes, e ainda sem remuneração. Muitos deste grupo, a pedido dos seus patrões e também como fiéis católicos, participaram ativamente das obras da construção da Catedral Nossa Senhora das Mercês, mas contudo, como homens e mulheres livres, não caracterizando assim mão escrava.

Foi da reunião daquelas vontades, da fé cristã de um povo e da destacada ousadia dos Frades Dominicanos e de toda a comunidade portuense, que após 10 anos de muito trabalho, a imponente Catedral Nossa Senhora das Mercês foi inaugurada na manhã do dia 24 de setembro de 1904, com uma concorrida missa campal. Após este ato religioso, todos os presentes puderam apreciar a majestosa nave central do templo, onde as 12 gigantescas colunas de sustentação, foram ali arquitetadas como símbolo de representatividade dos 12 apóstolos seguidores de Jesus Cristo, que enfileiradas criou-se uma sublime harmonia entre o altar central e os dois outros, do lado direito e do lado esquerdo
.  (Texto de Edivaldo Rodrigues)